Hoje não fui. Busco nos últimos anos ir somente aos lugares em que me sinto bem, à vontade, alegre e com energia boa. Mesmo na companhia de família e amigos, lá não ficaria nesse astral. A dor massacraria corpo e mente, a saudade transbordaria e entregaria o meu olhar, os porquês não teriam respostas e o dia seguiria triste e feio como o céu em dias de outono chuvoso.
Não fui, mas o visitei. Estávamos longe, mas o encontrei mesmo assim. Não precisei sair de casa, usar óculos escuros, comprar flores, chorar ou abraçar alguém. Nada disso foi necessário. O meu último abraçaço foi diferente, do jeito dele, na tentativa de imaginar o que se passava em sua cabeça naquele instante. Então, a agulha risca a bolacha com clássicos de Duke Ellington e John Coltrane e cria a ambiência perfeita para as lembranças de quase cem anos surgirem naturalmente em sua passagem.
A juventude boêmia na Salvador da primeira metade do século XX? As glórias do seu tricolor no Campo da Graça, contra o Santos de Pelé e 88? A construção da família e nascimento das filhas? As muitas viagens pelo Brasil afora? A cantoria poliglota em Arembepe, Stiep, Flamengo, Abrantes ou qualquer outro lugar em que o "cachorro engarrafado" estivesse ao seu lado? Causos e fatos como esses de um bon vivant inveterado, entusiasta da alegria, música e, claro, um whisky 12 anos, ficarão sempre registrados em minha memória.
Valeu, Evandro!
segunda-feira, 27 de maio de 2013
sexta-feira, 28 de dezembro de 2012
A volta da caneta
Ainda estou no terceiro dia de viagem, mas somente estas horas já despertaram o desejo adormecido de voltar a escrever. A vontade é instigada ainda mais após ouvir em uma das casas do amigo de Caribé, Jorge Amado e Vinícius de Moraes que o ofício diário da escrita é o grande segredo em vez da inspiração. E o que não falta na terra do também diplomata, poeta e boêmio é fonte para o exercício da palavra.
Como não ter ideias ao sentir momentos de paz tão raros hoje em dia ao lado da Imaculada? Impossível não pensar em um novo documento no Word, que não seja de trabalho, depois de contemplar a Cordilheira, os vales e a cidade do alto. É imperativo contar para os amigos a organização e limpeza das calles apesar dos inúmeros cães de rua e pombos. Letras se juntam e buscam formar algo que consiga descrever a beleza das chicas, muito brancas de cabelos longos cacheados, mas também morenas bronzeadas pelo sol forte do verão. A prosa surge facilmente ao descobrir que, mesmo com a forte cultura do vinho, há cervejas artesanais e comerciais deliciosas. A degustação dos diversos rótulos ativa o lado quente do cérebro e a felicidade se completa.
Já que estamos em um blog, o texto cumpre sua função de tirar o autor do sedentarismo da escrita porque se as ladeiras de Valparaíso, a praia quente e gelada de Viña del Mar e, principalmente, a culinária de Santiago de entrarem na pauta, o post vira romance.
quarta-feira, 25 de abril de 2012
O telefone tocou novamente
O telefone toca. Ao contrário do que o mestre do samba-rock canta em um de seus clássicos, era o meu amor. Mas não aquele que conhecemos com vinte e poucos anos, ficamos apaixonados e construímos uma relação juntos. O amor do outro lado da linha é antigo e faz o coração bater desde a infância. Não pensem que revivo alguma história com uma coleguinha da escola como tem sido mostrado em "Avenida Brasil" de modo tão delicado e bonito por Rita e Batata. Falo do amor em estado bruto, animal, de pele e sangue para a vida toda. Era ela quem ligava para proporcionar mais um momento alegre à cria.
Dizia ela: "meu filho, você tem um disco de Jorge Ben que tem ele com um cachorro na capa?". E mesmo com quase 30 anos, a eterna criança para ela, responde com a mesma ansiedade de quando esperava os famosos pacotes de figurinhas: "não, mãe. Pode trazer.". Mimo da velha em plena ressaca de uma manhã de sábado e, sendo este um vinil do ídolo, ah, não tem preço.
Ela retorna do trabalho, entrega o presente e aponta uma faixa do lado B com aquele sorriso meigo só dela. O nome da canção? "Katarina, Katarina".
Dizia ela: "meu filho, você tem um disco de Jorge Ben que tem ele com um cachorro na capa?". E mesmo com quase 30 anos, a eterna criança para ela, responde com a mesma ansiedade de quando esperava os famosos pacotes de figurinhas: "não, mãe. Pode trazer.". Mimo da velha em plena ressaca de uma manhã de sábado e, sendo este um vinil do ídolo, ah, não tem preço.
Ela retorna do trabalho, entrega o presente e aponta uma faixa do lado B com aquele sorriso meigo só dela. O nome da canção? "Katarina, Katarina".
quinta-feira, 1 de dezembro de 2011
A Bahia e o Farol
A Bahia não tem mais a força. Salvador não é mais segura. A boa terra perdeu o brilho. A cidade da alegria deixou de reluzir. O farol se apagou e a escuridão levou consigo a beleza presente no imaginário das pessoas quando se pensa na terra de todos os santos.
Graças ao Nosso Senhor do Bonfim, o eterno farol e guia, este inimigo ainda não dominou por completo o território de seus devotos, porém já o avistamos muito próximos da base baiana. Os faróis indicam alerta máximo! Ainda bem que temos três deles cobrindo a primeira capital do país de uma ponta a outra da cidade para nos defender. Estes imponentes escudos não nos salvam hoje com os seus canhões desativados, mas sim como fonte de inspiração para vencermos tal guerra. Nesta trinca poderosa entre as cidades Alta e Baixa, o encanto pleno e os ensinamentos únicos para mim acontecem na Barra. É lá que a Bahia poderia aprender a ser Bahia novamente.
Tenho muita sorte em ter o Largo do Farol há poucos minutos da minha casa e também do trabalho. Tornei-me então um transeunte comum do principal ponto turístico de Salvador, praticamente um nativo. Costumo visitar o pico para passear com o cachorro, ver o por-do-sol, caminhar com meu amor, contemplar a paisagem ou procurar um boteco. E é neste roteiro que percebo uma Salvador como ela deveria ser sempre.
A harmonia, palavra tão pouco dita ou escrita ultimamente, entre pessoas diferentes é soberana no calçadão do Farol. Apaixonados por motos, ciclistas, doidões, clubes de corrida e famílias, por exemplo, curtem o mesmo espaço sem problemas. Isto pode parecer pouco hoje em dia, porém essencial para as torcidas tricolores e rubro-negras voltarem a conviver e dividir ambientes em comum sem brigas. O recado vale também para aqueles que fazem da capital baiana a mais barulhenta do Brasil, incomodando vizinhos e todos ao redor.
Noto também um respeito maior à diversidade quando vejo casais gays juntos nos bancos sem medo de serem agredidos, adolescentes fazendo rodas de violão no gramado iluminado e idosos conversando fiado ou jogando dominó.
Devido ao apelo turístico, o ar cosmopolita em frente ao Edifício Oceania nos faz respirar melhor num momento que os políticos, empresários e soteropolitanos em geral insistem em agir de maneira provinciana e retrógrada.
Por fim, prefiro não arriscar em comentar arte e ser superficial, pois estamos no marco zero de um dos circuitos do Carnaval, palco onde a criatividade baiana explode e fascina o mundo. Deixo então vocês com a voz de Baby, as palavras de Galvão e o som dos Novos Baianos e sonho que o farol nunca deixe de iluminar as águas da Bahia.
Graças ao Nosso Senhor do Bonfim, o eterno farol e guia, este inimigo ainda não dominou por completo o território de seus devotos, porém já o avistamos muito próximos da base baiana. Os faróis indicam alerta máximo! Ainda bem que temos três deles cobrindo a primeira capital do país de uma ponta a outra da cidade para nos defender. Estes imponentes escudos não nos salvam hoje com os seus canhões desativados, mas sim como fonte de inspiração para vencermos tal guerra. Nesta trinca poderosa entre as cidades Alta e Baixa, o encanto pleno e os ensinamentos únicos para mim acontecem na Barra. É lá que a Bahia poderia aprender a ser Bahia novamente.
Tenho muita sorte em ter o Largo do Farol há poucos minutos da minha casa e também do trabalho. Tornei-me então um transeunte comum do principal ponto turístico de Salvador, praticamente um nativo. Costumo visitar o pico para passear com o cachorro, ver o por-do-sol, caminhar com meu amor, contemplar a paisagem ou procurar um boteco. E é neste roteiro que percebo uma Salvador como ela deveria ser sempre.
A harmonia, palavra tão pouco dita ou escrita ultimamente, entre pessoas diferentes é soberana no calçadão do Farol. Apaixonados por motos, ciclistas, doidões, clubes de corrida e famílias, por exemplo, curtem o mesmo espaço sem problemas. Isto pode parecer pouco hoje em dia, porém essencial para as torcidas tricolores e rubro-negras voltarem a conviver e dividir ambientes em comum sem brigas. O recado vale também para aqueles que fazem da capital baiana a mais barulhenta do Brasil, incomodando vizinhos e todos ao redor.
Noto também um respeito maior à diversidade quando vejo casais gays juntos nos bancos sem medo de serem agredidos, adolescentes fazendo rodas de violão no gramado iluminado e idosos conversando fiado ou jogando dominó.
Devido ao apelo turístico, o ar cosmopolita em frente ao Edifício Oceania nos faz respirar melhor num momento que os políticos, empresários e soteropolitanos em geral insistem em agir de maneira provinciana e retrógrada.
Por fim, prefiro não arriscar em comentar arte e ser superficial, pois estamos no marco zero de um dos circuitos do Carnaval, palco onde a criatividade baiana explode e fascina o mundo. Deixo então vocês com a voz de Baby, as palavras de Galvão e o som dos Novos Baianos e sonho que o farol nunca deixe de iluminar as águas da Bahia.
sexta-feira, 15 de abril de 2011
segunda-feira, 28 de março de 2011
9 meses
Em nove meses uma vida se faz
Foi assim que eu cheguei trinta anos atrás
Em nove meses tudo mudou
O lar de repente se esvaziou
Em nove meses estou muito feliz
Casamento e amor como sempre eu quis
Em nove meses a saudade é rainha
Na cidade da alegria tudo lembra a baixinha
Em nove meses muita coisa eu vi
Até o velho Paul cantando “Let it Be”
Em nove meses até o Bahia subiu
Pena que o Paul daqui infelizmente não viu
Em nove meses o tempo não para
A família unida, isso sim, jóia rara
Em nove meses um ato voraz
Por que machucar uma dupla da paz?
Em nove meses muito a se festejar
Amigos do peito sempre a me apoiar
Em nove meses Cate e Paulo se vão
Mas os momentos com eles nunca se apagarão
Foi assim que eu cheguei trinta anos atrás
Em nove meses tudo mudou
O lar de repente se esvaziou
Em nove meses estou muito feliz
Casamento e amor como sempre eu quis
Em nove meses a saudade é rainha
Na cidade da alegria tudo lembra a baixinha
Em nove meses muita coisa eu vi
Até o velho Paul cantando “Let it Be”
Em nove meses até o Bahia subiu
Pena que o Paul daqui infelizmente não viu
Em nove meses o tempo não para
A família unida, isso sim, jóia rara
Em nove meses um ato voraz
Por que machucar uma dupla da paz?
Em nove meses muito a se festejar
Amigos do peito sempre a me apoiar
Em nove meses Cate e Paulo se vão
Mas os momentos com eles nunca se apagarão
segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011
Ah, imagina só...
Nestes dias de calor e ansiedade em Salvador que antecedem o Carnaval, saio de uma leitura densa, questionadora e reflexiva para outra mais leve e alegre. Tiro do armário um dos livros que ganhei no Natal com a certeza de que este é o momento ideal para aproveitá-lo. Trata-se da segunda obra de um autor que, assim como Chico Buarque, passei a acompanhar o seu trabalho além das canções. Porém, enquanto o poeta dos olhos azuis opta por figuras esquisitas como Benjamin, José Costa e o idoso em estado terminal, o bigodudo de óculos escuros prefere contar os causos de sua vida em verso, prosa e música. "Sonhos Elétricos" de Moraes Moreira entra em minha vida da mesma maneira que "Acabou Chorare", fazendo-me sonhar que a folia volte a ser da maneira que Caetano Veloso a descreveu em 1975.
"O Trio Elétrico tem sido uma coisa muito importante nas nossas vidas. Um mito, um exemplo de saúde e criatividade, um argumento eficaz na discussão contra o pensamento careta que vez por outra tenta destransar o barato da música popular no Brasil. Mas principalmente para nós baianos, o Trio Elétrico tem sido sobretudo uma curtição maior deste mundo. Cada carnaval é um acontecimento importante dentro da gente - como tem que ser o carnaval - por causa do Trio Elétrico.
Nunca é demais agradecer a Osmar e Dodô por terem permitido através da sua juventude que isso tenha se dado. Moraes, sempre novo e sempre baiano, sabe isso certo e bonito. É o pique antropofágico do som do Trio, carnavalizando tudo que encontra pela frente - Os clássicos mais populares e os populares mais clássicos. Viva a Bahia!".
"O Trio Elétrico tem sido uma coisa muito importante nas nossas vidas. Um mito, um exemplo de saúde e criatividade, um argumento eficaz na discussão contra o pensamento careta que vez por outra tenta destransar o barato da música popular no Brasil. Mas principalmente para nós baianos, o Trio Elétrico tem sido sobretudo uma curtição maior deste mundo. Cada carnaval é um acontecimento importante dentro da gente - como tem que ser o carnaval - por causa do Trio Elétrico.
Nunca é demais agradecer a Osmar e Dodô por terem permitido através da sua juventude que isso tenha se dado. Moraes, sempre novo e sempre baiano, sabe isso certo e bonito. É o pique antropofágico do som do Trio, carnavalizando tudo que encontra pela frente - Os clássicos mais populares e os populares mais clássicos. Viva a Bahia!".
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