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segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Ah, imagina só...

Nestes dias de calor e ansiedade em Salvador que antecedem o Carnaval, saio de uma leitura densa, questionadora e reflexiva para outra mais leve e alegre. Tiro do armário um dos livros que ganhei no Natal com a certeza de que este é o momento ideal para aproveitá-lo. Trata-se da segunda obra de um autor que, assim como Chico Buarque, passei a acompanhar o seu trabalho além das canções. Porém, enquanto o poeta dos olhos azuis opta por figuras esquisitas como Benjamin, José Costa e o idoso em estado terminal, o bigodudo de óculos escuros prefere contar os causos de sua vida em verso, prosa e música. "Sonhos Elétricos" de Moraes Moreira entra em minha vida da mesma maneira que "Acabou Chorare", fazendo-me sonhar que a folia volte a ser da maneira que Caetano Veloso a descreveu em 1975.

"O Trio Elétrico tem sido uma coisa muito importante nas nossas vidas. Um mito, um exemplo de saúde e criatividade, um argumento eficaz na discussão contra o pensamento careta que vez por outra tenta destransar o barato da música popular no Brasil. Mas principalmente para nós baianos, o Trio Elétrico tem sido sobretudo uma curtição maior deste mundo. Cada carnaval é um acontecimento importante dentro da gente - como tem que ser o carnaval - por causa do Trio Elétrico.
Nunca é demais agradecer a Osmar e Dodô por terem permitido através da sua juventude que isso tenha se dado. Moraes, sempre novo e sempre baiano, sabe isso certo e bonito. É o pique antropofágico do som do Trio, carnavalizando tudo que encontra pela frente - Os clássicos mais populares e os populares mais clássicos. Viva a Bahia!".

sábado, 17 de janeiro de 2009

Eu sou o Carnaval em cada esquina - Fim da trilogia

Os dois primeiros textos desta série relataram a minha relação de ódio com o Carnaval. Como num romance juvenil, onde briga-se com a colega de sala todos os dias no colégio, mas no final o amor sempre reina, comecei a paquerar o Carnaval. Com os hormônios em alvoroço, os solos da guitarra baiana começaram a tomar conta do coração antes ocupado por riffs distorcidos.

Nesta fase de conquista, fui seduzido primeiro pela beleza da festa. Linda! Refiro-me às meninas baianas, garotas de ipanema, gurias do sul e maravilhas de todo o Brasil. O lado lúdico do Rei Momo ainda não fazia a minha cabeça. Luiz Caldas tem um refrão que descreve bem o lema da época: "eu quero beijo, beijo, beijo, beijo, beijo, quero te beijar".

O objetivo era vencer sempre de goleada dos adversários. O time jogava pra frente no esquema 0-0-11 e todos queriam ser o camisa 9. As partidas eram disputadas e duravam muito mais do que noventa minutos. Se o baba fosse na praia entre a Barra e Ondina, a busca pela artilharia durava 5 horas. Agora, se o jogo fosse na quadra do Campo Grande, mermão, o cronômetro marcava até 7, 8 horas. E tome gol! O importante era ter um saldo positivo sem se importar com gol bonito ou feio. Salve, Túlio Maravilha! Aliás, não existe nenhum boleiro que só tenha feito gol de placa.

Antes do campeonato começar em fevereiro, havia a pré-temporada na qual escolhia a equipe em que iria jogar. A decisão era criteriosa. Analisava o desempenho do time no ano anterior, o preço, o mando de campo - Orla ou Avenida - e o comandante do elenco - Banda Eva, Araketu, Cheiro de Amor entre tantos outros nomes. Nestes anos, vesti diversas camisas, A Barca, Nú Outro Eva, Cerveja & Cia, Cheiro de Amor e Camaleão, e nunca desapontei a torcida em nenhuma delas.

Após paquerar e ficar várias vezes com a maior festa do mundo, resolvi assumir o namoro. Com o aumento da intimidade, passei a perceber outras qualidades da pessoa amada e aquela paixão inicial deu lugar a um relacionamento maduro. Descobri o Carnaval de verdade ao acompanhar na pipoca os trios e artistas que realmente curtia - Armandinho, Dodô e Osmar, Expresso 2222, Daniela Mercury, Carlinhos Brown e Margarete Menezes. Neste circuito independente, pulei solto sem se preocupar com cordeiros ou seguranças, vesti as roupas que quis e não precisei usar a mesma camisa que outras três mil, não paguei nada, entendi o significado das palavras energia, fé e diversidade e as via ao meu lado o tempo todo, contemplei o espetáculo da multidão ávida por alegria, ouvi e chorei com apresentações memoráveis dos músicos mais fodões do Brasil como Pepeu e Armandinho, Gil e Jorge, Daniela e Lenine, Arnaldo Antunes e Davi Moraes e Caetano com Samuel Rosa.

Por outro lado, os defeitos do companheiro numa relação a dois sempre aparecem e ficam cada vez mais evidentes. Já pensei em dar um tempo, fazer uma viagem ou até ser infiel e conhecer as festas de Recife ou Rio de Janeiro, mas acho que vou mesmo é pedir o divórcio do Carnaval de Salvador. A mesmice, falta de criatividade, incompetência, disparidade, ostentação, ganância, futilidade, intolerância, falta de respeito e preconceito de todos chegaram a níveis absurdos.

Infelizmente, depois de seis dias de êxtase, chega a quarta-feira de cinzas. Mas, prefiro terminar em alta igual aos confetes e serpentinas lançados no ar. Para isso, nada melhor do que citar uma das bandas mais importantes do Carnaval de Salvador, os Novos Baianos, e imaginar como seria o verso de Galvão "minha carne é de Carnaval, meu coração é igual" saindo da Boca de Cantor numa época em que não vivi, a Castro Alves abarrotada num encontro de trios às 05 horas da manhã.

Este texto é dedicado ao meu amigo Jow e aos Galindos, a família mais foliã do mundo.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Eu sou o Carnaval em cada esquina - Parte II

No texto anterior, o pombo correio contou o meu repúdio ao Carnaval durante a minha infância. A ojeriza em relação à folia momesca só fez aumentar no início de minha adolescência. Porém, a causa agora era o tal do rock n' roll.

Com distorção entrando pelos sete buracos da minha cabeça, o trio elétrico - pipoca, abadá e axé - ficava cada vez mais distante de mim. Ao mesmo tempo em que descubria clássicos como "Rocket to Russia", "Chaos A.D.", "Cabeça Dinossauro" e "In Utero", a rotulada axé music emplacava um hit atrás do outro. Além do mais, os ambientes em que frequentava, muito parecidos com este vídeo - http://www.youtube.com/watch?v=CAep4VS40qo -, nada lembravam os clubes Bahiano de Tênis e Espanhol. Conclusão: dar um "mosh" batia muito mais onda do que sair do chão.

Sendo assim, restava para mim viajar ou curtir o Carnarock. Entre 94 e 97, não tive dúvidas, só dava Carnarock. Idealizado pelo Clube de Rock, o festival acontecia em pleno Carnaval na praia de Piatã enquanto o resto da cidade corria atrás do trio.

Como pede o Carnaval, o público era uma geléia geral com gente de tudo quanto é jeito. Tinha punk, metaleiro, hippie, skatista, grunge, doidão, bêbado e alternativo. Quase todos, inclusive eu, vestiam camisas pretas com estampas de suas bandas favoritas e jeans. Esse era o nosso abadá. Os mais radicais usavam adereços de acordo com a sua tribo. Os punks ostentavam correntes, coturnos e munhequeiras enquanto os metaleiros amedrontavam os demais com crucifixos invertidos, tatuagens e camisas com dizeres satanistas. Qualquer antropólogo que estivesse em dúvida sobre o tema de sua monografia bastava ir a um dia no Carnarock para encontrar um tema. Assunto não faltava.

Já que o papo é gente, eu e meus amigos tínhamos uma afinidade com o Carnarock absurda. Aquele lugar era o nosso Woodstock. Explico. Foi o nosso primeiro encontro com uma palavra tão almejada por todos, a liberdade. Como éramos guris, com média de idade de 14 anos, tudo era novidade. Sair sozinho, fazer o que quiser, ficar à vontade, comer junkie food, bater cabeça, tocar air guitar, ficar plantado, pular do palco e ouvir muito rock, é claro. Destas experiências ficaram muitas histórias para contar aos nossos netos.

Naquele palco, com telões e caixas de som iguais ao do show de Lenny Kravitz que vi no Pacaembu, assisti as bandas mais legais de Salvador - The Dead Billies, Lisergia, Dois Sapos e Meio - e conheci muitas bandas como Ulo Selvagem, Slow e Zona Abissal. Infelizmente, a Locomosquito nunca conseguiu tocar lá porque o bloco do Clube do Rock era mais preconceituoso do que o Eva nos anos 90.

Em 1997, com estrutura pífia, bandas de péssima qualidade e ambiente sem segurança, a praia de Piatã tomou uma goleada da Barra, Ondina, Campo Grande e do corredor da história. Virei a casaca.

A saga carnavalesca continua no próximo post. Aguardem o último bloco da trilogia.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Eu sou o Carnaval em cada esquina - Parte I

A primeira lembrança que tenho do Carnaval é de 1986 quando saí no ombro de meu pai no Camaleão na Avenida Sete. Acho que ele não tinha com quem deixar o filho e foi obrigado a carregar o guri sem falar na mamãe-sacode, lata de cerveja, cigarro e a mortalha. Haja equilíbrio, ou melhor, "haja amor". Mas prefiro pensar que fui levado à Avenida Sete naquele dia para ser iniciado na dita maior festa popular do mundo.

No ano em que o Brasil foi eliminado pela França pela primeira vez, quem puxou o bloco foi Luiz Caldas e banda Acordes Verdes, que incendiava as tardes no Chacrinha, tocava nas principais rádios populares do Brasil, vendia milhares de bolachões e tinha dois desconhecidos em sua formação, Carlinhos Brown e Cesinha. Até então, meu conhecimento musical se resumia a Balão Mágico, Trem da Alegria, Menudo, Tremendo e Dominó. Nunca tinha ouvido falar em "Fricote", "Magia" e "Ajayô" e nem lembro se curti ou não aquelas músicas que saíam das caixas do trio elétrico.

Ainda nesta época e até o início dos 90, fui uma criança insuportável. Era nojento, dengoso, chato, grosso e anti-social. Vale reforçar o tempo do verbo - ERA - ok? Conciliar esses atributos com toda a confusão do Carnaval em minha infância foi mais difícil do que acompanhar a temida corda do Chiclete hoje em dia.

Neste período, meu pai trabalhava em uma instituição localizada no meio da Avenida Sete, trecho do circuito onde as bandas estão embaladas após a saída do Campo Grande. Por causa disso, este ponto sempre foi considerado boca de zero-nove pelos foliões. Para vender bebidas e petiscos à massa e fazer o Planeta Othon dos anos 80, meu pai e os seus colegas montavam uma barraca na frente do prédio. Beleza pura, dinheiro não! O problema era um só: eu! Odiava aquele espaço. Gente suada e fedorenta, comida suja, Sarajane e Cid Guerreiro, Guaraná Brahma e copo de plástico. Não tinha brigadeiro, coxinha da Perini, Big-Sundae, tubaína, Atari, álbum de figurinha, bola, filme dos Trapalhões nem pega-pega. Quer dizer, rolava muito pega-pega, mas esse eu ainda não podia brincar. Além do mais, minha gagueira era mais acentuada. Praticava o velho provérbio: entrava mudo e saía calado. Sempre de mau humor.

E a dúvida continua até hoje. Esse sofrimento foi um treino para eu enfrentar o Carnaval sozinho posteriormente ou não existiam creches ou babás naquele período?

Para terminar, segue um vídeo de primeira classe: http://www.youtube.com/watch?v=ps8GgGKYueU

A folia do Rei Momo continua. Aguardem o próximo post.