Na vida de todo ser humano existem fatos marcantes que mudam por inteiro o way of life do pacato cidadão. Pode ser uma viagem, um amor, um livro ou qualquer dois mil réis. Gil não seria o mesmo se não fosse exilado em Londres, Arnaldo Baptista poderia estar lúcido até hoje se não amasse Rita Lee e os LP´s "Tim Maia Racional Vol. I e II" poderiam ser encontrados ali pertinho do Bompreço se o Síndico não tivesse lido "Universo em Desencanto". Surtei quando conheci um brother chamado Rock.
Filho de um negão de nome Blues, americano e com mais de 60 anos, Rock apresentou para o guri de 12 anos uma nova forma de ver o mundo através da música. O ano era 1993 e, como todo adolescente, eu consumia o que estava no mainstream. A moda daquela época era tomada por um dos netos de Rock, o Grunge. Ele era um cara massa que transbordrava música e comportamento, ou melhor, rock e atitude. Com ele, descobri porradas como "Bleach", "Nevermind", "Ten" e "Superunkown" e passei a pensar e me vestir diferente.
Depois disso, o cidadão instigado conheceu a família toda. Com o tempo, Hard Rock, Heavy Metal, Punk Rock, Hardcore, Psicodelia, Progressivo e a árvore genealógica completa do filho do Diabo se tornaram meus melhores amigos. Porém, durante esses anos uma mania de criança insistia em vir à tona, a de não gostar de algo sem conhecer. Costumava dizer que detestava camarão, lambreta e maniçoba sem nunca ter comido uma moqueca, bebido um caldinho quente no copo americano ou ter ido almoçar na A Venda.
Esse "tique" se transformava num TOC pior do que o de Roberto Carlos quando alguns amigos conversavam comigo sobre uma das principais obras do velho Rock, uma banda de quatro ingleses dos anos 60. Já tinha lido muito a respeito deles, ouvido diversos hits, sabia da sua importância, mas o Sargento Pimenta não agradava os meus ouvidos de jeito nenhum. Puro preconceito. Quase um apartheid.
As coisas mudaram enquanto lia a biografia banda mais foda do Brasil, Os Mutantes. As páginas corriam e o autor fazia constantes referências à devoção dos irmãos Baptista e de Rita Jeep pelo Submarino Amarelo. Pensei: "se Arnaldo e cia dizem que a principal influência deles são os Beatles, esses caras devem ser realmente bons. kkkkkkk". Acho que nunca fui tão ignorante em minha vida. Nesse momento, lembrei de uma entrevista em que Ed Motta comentava como se tornou fã de Tom Jobim. O cantor de "Manoeeeel" comprou o primeiro disco do Maestro quando leu na contra capa do LP o nome de um produtor que ele admirava. Se não fosse essa nota de rodapé, talvez a bossa nova nunca entrasse no funk e soul do sobrinho de Tim Maia.
Mas, o assunto é Rock e sua extensa família. A cena vergonhosa descrita acima aconteceu em setembro de 2007. No mês seguinte, fui ao paraíso dos discos em São Paulo, a "Baratos Afins" na Galeria do Rock, e fui recuperar o tempo perdido. Comprei "Rubber Soul" e "Sgt. Pepper´s". Fiquei viciado. Ainda em outubro, mudei de emprego e a maior parte da agência venerava Seu Rock. Nos dez meses que passei nessa empresa, sob influência do diretor de criação, conheci os verdadeiros The Beatles. Recentemente, comprei dois álbuns clássicos, "Branco" e "Revolver".
Se não fosse apresentado a Rock há 15 anos, provavelmente nunca entenderia o que foram os besouros.
Escrevi esse texto, que dedico para Caio, Tiago, Pedroca e Coló, ouvindo Paul, John, George e Ringo na radiola e no CD player.