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terça-feira, 8 de setembro de 2009

Dias de janeiro

Era domingo. Pra ser mais preciso, 14/01/07. Acordo por volta das 12 horas e olho, sob o efeito da ressaca, o ambiente ao redor e não reconheço nada. Não encontro as torres de cd's, a placa de Olinda, os vinis, o Cavalinho, as fotos da galera nem a pretinha Dean. Assustado, verifico e percebo que não levaram meus rins nem estou numa banheira com gelo. Ufa! Salve, Jorge! Levanto do sofá, pé direito no chão e vejo meu primo jogado no chão com uma cara pior do que a minha. Lá ele! Em segundos, rebobino a fita da memória, aperto o play e as lembranças chegam em câmera lenta.

Relaxado, percebo que estou no Humaitá ao ler uma placa de rua, mas abro a janela e não vejo o Farol, o Forte nem a Baía de Todos os Santos. Reconheço a queda, mas não desanimo. Levanto, sacudo a poeira e dou a volta por cima ao enxergar a Lagoa Rodrigo de Freitas em um dia nublado apesar do verão carioca. Cabeça de gelo, pois alguns dias antes acompanhei o sol de 40 graus pelo Leblon, Ipanema, Copa e vi ele descansar de mais um dia de trabalho no Arpoador. Tá registrado, cumpádi!



Volto para o sofá e sigo para o meu ritual diário, pedindo proteção e saúde e agradecendo também. Enquanto procurava os santos, notei um papel em preto e branco com uma letra imensa de música e o verso "salve, poetas e compositores, salve também os escritores" soluciona o mistério. Na noite anterior, cruzei o Rebouças e as retinas baianas registraram o gigante Maraca, a aprazível Vila Mimosa, as luzes da Sapucaí e, enfim, a chegada ao Palácio do Samba.

Tenso por estar no pé do morro e sem Zé do Caroço pra me ajudar, começo a viagem pelo mundo verde e rosa. Faço um tour pela sala de trófeus, bato um papo com Cartola, reverencio os baluartes, pechincho uns souvenirs, compro uma gelada e piso na quadra. Com a visão além do alcance ligada, fotografo o Santo Guerreiro protegendo todos nós e o céu limpo sem nenhuma nuvem, passageira ou não. Os tambores começam a rufar, mas ainda é só uma preliminar da grande partida que será disputada naquela noite. Três sambas tocados, a temperatura começa a subir, as negras roubam os olhares e o surdo bate cada vez mais forte no meu peito. É hora da apoteose! Dezenas de tamborins, caixas, surdos, tons, um cavaco e um cantor convocam cariocas, turistas e globais pra se esbaldarem na sonzeira. Rock n' roll! Vibro com os clássicos, decoro o samba enredo daquele ano e só não fico pra Alvorada porque São Jorge tinha muito mais gente pra cuidar naquela noite.

Depois de rezar, acordo meu primo e comemoro o Dia D, 14/01/07.Vocês saberão logo o motivo. Como já eram quase 13 horas, reforço que não podemos perder tempo. Engolimos um fast food no Rio Sul, voltamos pro apartamento e poucas horas depois o letreiro ainda apagado de uma casa muito famosa fica cada vez mais próximo. São sete letras que trazem consigo muita tradição da música popular brasileira, C-A-N-E-C-Ã-O. Ansiedade, nervosismo, alegria e, principalmente, precaução se misturam até porque o ingresso do Setor A já estava garantido fazia dois meses. Desastrado e esquecido que sou, o máximo de cautela era o mínimo que poderia fazer para a comédia não virar tragédia. Apresento as entradas, faço alguns clicks do hall e vou logo para a minha mesa, afinal, um senhor de olhos azuis me esperava e minha mãe me ensinou que não se deve tratar mal os idosos.

O tal coroa ainda está em forma, escrevendo, compondo e cantando como nunca. Os versos da Mangueira já sinalizavam o que estava por vir: "salve, poetas e compositores, salve também os escritores". É bom lembrar que o velhinho também publica livros. Além disso, o homem é craque no futebol e é venerado por nove de cada dez mulheres brasileiras. Num bom baianês, miseravão! Seu nome? Não é necessário. Cito apenas o nome do show: "Carioca".

O espetáculo começa com "Voltei a Cantar" e os gritos dominam o Canecão. Em seguida, "Subúrbio" vem com tudo, integra o Rio de Janeiro por completo e os morros da cidade são evidenciados por uma iluminação cuidadosa. Na sequência, todas as músicas do álbum são tocadas intercaladas pelos grandes sucessos. Enquanto isso, o balde de cerveja insistia em esvaziar e os petiscos também. Fim do show. O Presidente do Politeama Futebol Clube se despede. "Falta quem te viu, quem te vê", comento com meu primo. Repito, insisto e digo que vou subir na cadeira se o camisa 9 do Clube Varonil tocar da música. "Vamos de samba?" diz o autor de Budapeste no microfone ao retornar ao palco e puxar os acordes da canção pedida. Nirvana! De quebra, ainda teve "Sem Compromisso" e "João e Maria". Em êxtase, ligo para contar aos amigos distantes a catarse, paro na Cobal de Botafogo e tomo um chopp pra distrair.

Para este final de semana ser perfeito, bastava Chico cantar "Piano na Mangueira", mas como não existe perfeição, fico sonhando como seria este momento. "Imagina, imagina...".

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Férias e vacaciones - Parte 1

Verão de 2007. Após um janeiro intenso de Ipanema, Angra dos Reis, Cabo Frio, Arraial do Cabo, Praia do Forte, Porto da Barra e Praia do Flamengo, minhas primeiras férias de trabalho se encerravam com muito sol, suor e cerveja.

A partir daí os tãos sonhados trinta dias de ócio foram adiados por duas vezes devido à inquieta procura da batida perfeita empresarial. Quando planejava a próxima trip de verão, troquei a Ideia 3 pela Tempo Propaganda. No ano seguinte, decidi sentir frio em algum canto do Sul, mas a mudança para a Ladeira da Barra engavetou o projeto. Nesse período, procurei curtir os momentos de transição e os recessos com viagens para São Paulo, Rio de Janeiro e Aracaju e momentos de sossego na minha Baêa. Mas o ser humano é eternamente insatisfeito. Algo ainda estava faltando. A leveza característica, a maresia habitual, o descompromisso com tudo, o cochilo em qualquer hora do dia, o esquecimento de senhas e campanhas estavam muito longe de mim. Enfim, não era possível cantar "ando meio desligado".

Com um ano de casa nova, já era hora de atuar em mais um road movie. Passagens compradas, hospedagens reservadas, dinheiro no bolso, fé em Deus e pé na estrada! Já que o Tricolor de Aço não disputa um torneio internacional faz 20 anos, decidi por conta própria disputar a Libertadores. Destino: São Paulo, Argentina e Porto Alegre.

O primeiro jogo acontece na terra da garoa. Apesar de ser a sexta vez que a visito, São Paulo sempre traz surpresas. Saio bem cedo de Salvador, chego de rango no Aeroporto de Guarulhos e vou direto para um ambiente bem paulistano, a gordurosa padoca. Lá, devoro o tradicional pão de mortadela com uma dose de 500 ml de vitamina C, ouço o sotaque dos manos e começo a sentir na pele a mudança do inverno baiano de 30 graus para os míseros 15 da capital paulista. Em seguida, vou em uma típica feira de sábado e tento lembrar a última vez que fui numa em Salvador, mas não consigo. De rolê pela rua, percebo os feirantes tentando atrair os transeuntes com os seus chavões, experimento umas frutas esquisitas, detono mais uma iguaria local - o pastel de carne - e me assusto quando vejo uma placa vendendo um suposto "tempero baiano". Paro e pergunto: "o que tem nesse tempero?". Resposta: manjericão, pimenta calabresa, cebolinha e salsa batidos no liquidificador!!! Algum baiano já fez alguma moqueca, caruru ou sarapatel com isso?

Enfim, chega a hora de curtir o que SP oferece de melhor, a sua noite. Os trabalhos se iniciam com um "esquenta" no Bardot na Vila Olímpia acompanhado do chope Brahma cremoso, ambiente agradável, mesa cheia e conversa boa. Esquente feito, parti para o grand finale e como bom articulador socioetílico que sou, defino o reggae e junto baianos e paulistas na mesma balada. Vamos para o Grazie a Dio e ouvimos o melhor do funk, soul, samba-rock e groove com ninguém menos que a Banda Black Rio, mô pai. Assim que entramos, a big band estava suingando com "Carrossel" e me lembro Dela.

Domingão, dia de sol, praia e mar. Oxe! "O sonho acabou" já dizia Gil há 40 anos e já são 12 horas de relógio. Eu e Meireles descemos para mais um dia de pauta cheia: jogo do Brasil na casa de Camila, samba na Vila Madalena e a saideira de costume. Chegamos na Rua Blumenau no número 166 e vejo o quanto a faculdade foi importante pra mim. Ao entrar na casa aconchegante aos gritos de "Bora Baêa, minha porra", reencontro os amigos separados pelo destino. O trio Mila, Luís e a sarada Madá, Paulo, Fabrício e Bruno e sua Michele. Faltou apenas Massaranduba que estava em SSA. Após levantar a taça de Bi Campeão das Confederações, caio no swing com um power trio de samba - violão, pandeiro e baixão - acompanhado dos primos Rodrigo, Renata e Madson (!). Com todas as cadeiras sobre as mesas e o segurança solicitando a nossa saída, notamos que a missão estava cumprida e restava apenas a derradeira. Atravessamos a rua, pedimos um balde e mais um reencontro de alegria surge tão espontâneo quanto o ruído da cuíca ao entrar num samba.

Próximo capítulo: Buenos Aires.